Escrevi um tempo desses sobre uma forma de eutanásia praticada livremente em nossa “cidade verde”, silenciosamente, porém aos olhos de todos. Infelizmente tenho que voltar ao assunto.
Já tão decantada aos quatro cantos do país, nossa condição de segunda cidade mais verde do mundo deve estar ameaçada. Inobstante algumas árvores e palmeiras plantadas pela prefeitura, há a mania de se cortar, pelo pé, uma planta adoecida. Ou seja, está doente? Mata! Eutanásia forçada, sem direito à opção.
Agora chamo a atenção de todos para o bucólico Largo da Gameleira. Lembram daquela frondosíssima homônima, que, de tão grande e exuberante deu nome ao largo? Morreu à míngua, sem direito a tratamento. Cadê os nossos agrônomos?…Embora desfigurado e desfalcado de um de seus monumentos originais, o largo continuou a ser chamado como tal. E restaram duas gameleiras menores. Belas também, agora saudosas.
Como as plantas parecem precisar da convivência de suas semelhantes – quiçá sentem solidão – a companhia do mar, com sua brisa afável e renovadora, não foi suficiente para matar as saudades da gameleira que foi morta.
E eis que de banzo adoece sua vizinha irmã, que ainda vive um pouco adiante. Alguém já reparou? Duvido muito. Quantas e quantas pessoas passam por ali diariamente e nem sentem o cumprimento carinhoso de sua já fragilizada sombra… Como o cotidiano e a rotina nos tornam indiferentes à própria vida…
A gameleira está lá, doente, perdendo folhas, e ninguém vê, ninguém diz nada. Pouco mais resolvem derrubá-la, a pretexto da segurança dos homens, que continuam se achando superiores aos outros seres vivos… E então, das três irmãs restará só uma, sabe Deus até quando. Até quando? Ah… até o dia em que a raça humana se vir numa aridez irreversível e poluída, sem ter o que o que comer, sem água p’ra beber, e sem a sombra de uma árvore. Talvez nesse dia deixemos de pensar que somos os “tais”, embora será tarde demais para se lembrar das gameleiras…

Germano Romero

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