Caminhando após um dia desses molhados pelas últimas chuvas, tive uma boa surpresa íntima ao descobrir um sentimento novo, com raízes de instinto. No calçadão do Cabo Branco reinava aquela calmaria pós-chuva, com mar sereno, céu lavado e muitas mariposas ao redor das luzes nos postes.
Como de praxe, abundavam as tanajuras fazendo a festa no chão da calçada. E eis que ficou difícil caminhar. Descobri, gratificado que houve desenvolvido dentro de meus sentimentos ecológicos um instinto automaticamente acionado para protegê-las. Assim, caminhei desviando os passos com cuidado para não pisá-las.Legal descobrir isso, não? A sabedoria humana de tanto se aconselhar com a ecologia e a ciência absorveu enfim a idéia que na Natureza tudo tem a sua função. Inclusive as tanajuras.
Lembrei da infância, quando na construção vizinha os pedreiros comiam bunda de tanajura frita com farinha. Das brincadeiras de se amarrar linha na cintura das bichinhas para controlar o seu vôo. Mas, parece que antigamente havia mais tanajuras. Qualquer chuvinha chamava-nas aos montes. Hoje há menos, daí minha surpresa no calçadão.
Entretanto, a surpresa maior foi quando, pouco mais, avistei uma vovó que segurava na mão de sua neta, que caminhava em cima dos bancos de tijolo. Ao me aproximar pude ouvi-la instigando a garota a matar as tanajuras pisando em todas. – “Mata, Priscila! Mata, Priscila!”.
Que pena. Fiquei desapontado por demais. Tão satisfeito que eu vinha com a recente descoberta dos instintos de proteção aos bichos que desenvolvi sem me aperceber… E dar de cara com a vovó mandando a netinha pisar em todas as tanajuras, que absolutamente não fazem mal a ninguém…
Só a idade daquela senhora, vivida em tempos em que não se teciam considerações à ecologia, poderia justificar sua atitude insensível. Os tempos de agora não mais se afinam com destruição de plantas e animais, poluição, ou qualquer outro tipo de agressão à Natureza. Espero sinceramente que aquela garotinha, ao crescer, se desvie logo dessa educação errada que anda recebendo. É nas crianças que dorme a esperança de que a consciência da preservação natural seja desenvolvida cada vez mais. Se não for no seio doméstico que seja nas escolas, longe das vovós que incentivam suas netinhas a pisar nas tanajuras. E ao invés de dizerem “mata Priscila”, advirtam educando: “cuidado Priscila! “Cuidado para não pisar nas bichinhas. Elas têm o mesmo direito de viver que você!”
Ainda resta uma esperança que não se toque fogo em madeira, nessas noites vindouras, que homenageam santos mas não são santas. Que incoerência glorificar um santo, obviamente um espírito superior, com tanta agressão às riquezas divinas da Natureza. Poluir o ar, destruir árvores, soltar bombas, como ainda estamos atrasados! Que compaixão devem sentir pela raça humana os santos Pedro, Antônio e João. Vai ver que, em prece, eles continuam a pedir perdão como fez Jesus: “Pai, perdoai-vos. Eles não sabem o mal que fazem”…

Germano Romero

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