Caminhando no calçadão do Cabo Branco, ocorreu-me uma idéia que os meus botões consideraram digna de ser compartilhada com os leitores e a quem interessar possa. Aliás, quem é agraciado com a disposição para escrever e a oportunidade de um espaço em jornais, ou qualquer outro nicho da mídia, tem por obrigação ética e moral falar de coisas que ajudem a sociedade a melhorar.
A cena chamou-me a atenção pela hilaridade momentânea, simples e complexa ao mesmo tempo. Um cidadão parou seu carro num daqueles quiosques que cresceram e se transformaram em restaurantes, à beira-mar do Cabo que nunca foi Branco. Desceu, abriu a tampa traseira de seu porta-decibéis, olhou para os lados, ajeitou o cinturão e se sentou no banco do calçadão.
De lá, através do controle remoto, ligou o turbinado sistema “MP8” e sapecou no ar um som tão estrondoso que, juro, fez as estrelas taparem seu pontiagudos ouvidos. Claro que apressei meus passos antes que tivesse de marcar uma consulta com o o-tor-ri-no-la-rin-go-lo-gis-ta. Que maldade fizeram a esses médicos tão úteis à nossa saúde, chamando-os com nome tão complicado…
Após algumas passadas, eis que avisto outro evento, desta vez audiovisual: um rapaz que instalara na borda da calçada, ainda na areia, uma sofisticada e improvisada tenda, e sob ela pusera uma bancada repleta de DVDs piratas que eram fielmente reproduzidos num monitor de TV. Que modernidade!…
Junto, porém, outros garotos roubavam a cena. Pinotavam e pilotavam em alta performance os seus skates com piruetas tão fantásticas que só quem não aplaudia eram as lajotas do calçadão, ameaçadas de rachar com a pancadaria. E, poucos passos a mais, quase parei com o susto. Dois rapazes conversavam divertidamente, tendo aos seus pés outros dois rapazes da raça “pit-bull” que, a priori, seriam proibidos naquela área…
A essa altura do campeonato, ou melhor, da caminhada, comecei a pensar… o que mais seria proibido?.. Ou melhor, quem proibiria? A polícia, os fiscais? Qual nada. Bem à minha frente conversavam três duplas de autoridades que absolutamente não autorizavam nada. Uma dupla da polícia militar, outra de “amarelinhos” do trânsito, e a última exibia às costas o título de “agentes do controle urbano”. Puxa!… que ostentosa e prolífica fiscalização. Aí foi exatamente que lembrei da “Eureka” de Aristóteles: já sei porque a impunidade se perpetua tanto! Ora, é por causa da divisão das polícias. Se fosse uma só, estava resolvida grande parte dos problemas da ordem social. O guarda de tráfego seria de tráfico e o policial também poderia ser guarda florestal. É tão difícil?
Bem, desculpem a ignorância operacional dessa idéia, mas, observar três duplas de guardas conversando à beira de um ataque de nervos, diante de um som estarrecedor, numa beira-mar cheia de paz, e termos que esperar que alguém se disponha a chamar o “disque-silêncio”, porque somente “ele” pode vir nos socorrer, é demais p’ra minha cabeça.

Germano Romero

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