Ninguém deve tomar partido de uma causa sem ter conhecimento de todos os ângulos que a contornam. Só após exame acurado e imparcial pode-se transformar o preconceito em conceito. Aí, sim, tome-se uma posição consciente.
A respeito da legislação que limita a altura dos edifícios à beira-mar há alguns pontos a considerar. Primeiro, a sua intenção. Por quê e para quê ela existe?
As paisagens originais devem ser tratadas exatamente como os animais em extinção. A costa virgem brasileira exibia uma das mais belas visões tropicais do planeta. Mas, o encanto de morar à beira-mar desenvolveu-se junto com a civilização urbana e o resultado foi desastroso. A avidez descontrolada fez erguerem-se paredões de edifícios sem nenhum critério, com conseqüências nefastas ao meio ambiente, como em Copacabana, Icaraí, Santos, Guarujá, Boa Viagem, e tantas outras.
O medo de que isso pudesse acontecer aqui, e de que não restasse fatia alguma de nosso litoral em seu aspecto original, nos tornou pioneiros na criação da lei que limita a altura dos edifícios. Afinal, uma construção de doze metros não interfere tanto na paisagem quanto outra de cem.
Por outro lado, houve exagero em determinar que esse limite de altura se estendesse a todo o litoral do Estado. Aqui mesmo na capital, temos exemplos de algumas áreas que poderiam ser liberadas. A praia de Manaíra não tem relevo, não tem vegetação, e só conta com uma pequena faixa de areia. Que mal haveria em se construir belos edifícios à sua beira-mar?
Já o Cabo Branco é sagrado. A sua falésia não poderia ser jamais escondida por “espigões”. Aliás, há um sentido pejorativo e injusto nesse apelido, pois existem espigões que, do ponto de vista arquitetônico, são autênticas obras de arte. E as cidades não têm tantos espaços para crescer somente na horizontal.
No pretexto de que um edifício alto descaracteriza a paisagem há grande equívoco. Nada caracteriza mais a margem parisiense do rio Sena do que a Torre Eiffel. A Ópera de Sidney, concebida exatamente na ponta de terra sobre o mar se transformou no maior símbolo australiano. E quem diria que as pirâmides descaracterizaram o deserto egípcio?… E que o Mont Blanc e o Everest seriam feios por serem alto demais?…
Engana-se também quem imagina que liberando algumas áreas litorâneas abrir-se-ão precedentes para as outras. Ora, até hoje ninguém conseguiu para si o direito outorgado ao Hotel Tambaú de se instalar na areia da praia.
A polêmica veio mais uma vez à tona por conta da edificação do Moinho Dias Branco em Cabedelo. Dependendo do tratamento estético, do paisagismo e da iluminação de seu volume arquitetônico, o silo desse moinho pode vir a se tornar um belo marco do litoral norte.
A virtude está no meio. O radicalismo a nada leva. A arquitetura jamais tornará feia uma paisagem que a receba com harmonia e que com ela possa conviver preservando seus aspectos ambientais e de conforto. Pior do que prédios altos são as horrorosas e poluidoras barracas que se têm instalado sem controle, principalmente no litoral sul. Pior do que espigões são os índices de coliformes fecais que a Sudema divulga toda semana nos jornais tornando a praia de Manaíra sempre imprópria para banho.

Germano Romero 

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