É incrível como algumas coisas nunca mudam. E quando mudam… cuidado que é para pior!

Nosso poder público municipal, no tocante ao nosso – cada dia menos nosso – meio ambiente urbano, continua omisso, inerte e brincalhão com a paciência da população. Afora todas as já conhecidas mazelas ambientais, João Pessoa continua sofrendo com o “tudo posso” das nossas inúmeras construtoras. É incontestável que a construção civil é setor forte e representativo na nossa economia e na geração de empregos. Entretanto, isso não permite a ela atropelar nossas leis e os direitos de vizinhança, nem a faltar com o mínimo da chamada boa educação, indispensável nas relações sociais.

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Fazem o que querem com nossas calçadas, empilhando montes de areia, brita, blocos cerâmicos e entulhos de todo o tipo, privatizando o uso de um espaço público e obstruindo a nossa livre circulação, o que obriga as pessoas, inclusive as portadoras de necessidades especiais, a dividir o espaço com veículos, em pleno meio da rua.

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Constroem stands de vendas que reduzem, em muito, a visão dos veículos próximos às esquinas, colocando em risco a segurança de motoristas e pedestres que circulam nessas vias.

Barulho então, tem para todos os gostos. Afora os ruídos que decorrem da própria atividade, que já são muitos, gritarias, buzinas e outras formas pré-históricas de “comunicação” são mais do que freqüentes. Não respeitam os horários permitidos para a execução dos trabalhos, ora iniciando-os ainda muito cedo, ora estendendo a jornada, ao bel-prazer, até tarde da noite.

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Agora, extrapolam o imaginável quando seus engenheiros decidem que é lícito encher colunas e concretar lajes até tarde da noite, ultrapassando numa eternidade os limites de ruídos permitidos pelas legislações aplicáveis aos locais e aos horários dos trabalhos.

Aí, deveria entrar nosso poder público, mas ele não entra. Ao contrário, desaparece e se omite, e num descaso sem pudor faz com que o errado fique certo e o certo se perca no meio dessa anarquia de valores.

Vivi, mais uma vez, essa situação e depois de perto de 3 horas aguardando o atendimento pela SEMAM (Secretaria Municipal do Meio Ambiente), os incivilizados deram por concluída a jornada do dia, sem que ninguém interferisse ou os impedissem desse intento.

Denúncia feita às 18:00 hs e não atendida até as 21:00 hs, é o retrato do poder do lobby. De um lado o humilde contribuinte, que paga apenas um valor de IPTU e, do outro, os pagadores das famosas Outorgas Onerosas e de Taxas e Impostos que sustentam a máquina municipal. Confronto de David e Golias, separados por um poder público pífio no cumprimento de suas obrigações, omisso por interesses econômicos e impregnado pela obtenção de vantagens políticas.

É triste ter que reconhecer que, mesmo em tempos de discussões mundiais sobre mudanças climáticas, atividades sustentáveis e sociedades do futuro, aqui em João Pessoa continuamos na mesma. Afinal, na Aldeia das Neves, meio-ambiente nunca deu votos, apadrinhamento político ou recursos para campanhas eleitorais.

Construtores e profissionais ligados à construção civil que conheço sabem que não sou extremista, retrógado e nem contra o desenvolvimento social e econômico. Tenho, isto sim – assim como a maioria deles – a plena convicção que o homem é parte integrante, maior e essencial do meio-ambiente, mas tem que desenvolver-se em harmonia com ele e, por isso, a responsabilidade de tornar-se nesse processo, o ser com a maior sustentabilidade dentre todos. E nada mais sustentável nessa vida, que o respeito às leis, ao próximo e ao Estado Democrático de Direito.

Tavinho Caúmo

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Parcialmente publicado no jornal “Correio da Paraíba”, na coluna do estimado jornalista RUBENS NÓBREGA, em 27 e 29 de outubro de 2009.

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