Peço a atenção dos senhores prefeitos, vereadores, secretários municipais de Meio Ambiente, Ministério Público, Sudema e entidades não governamentais que cuidam – ou deveriam cuidar – de combater a poluição sonora.
Peço atenção para o artigo a seguir, publicado originalmente no Blog do Rona. Tem o mesmo título que botei na coluna, aí em cima, porque o espaço é de quem fez o que vai adiante, obra do consagrado poeta e escritor Ronaldo Monte.

Era véspera de ano novo e eu estava na fila do supermercado. Como sempre, nestes momentos, me distraio escutando o que as pessoas falam ao redor. Mas não era motivo de distração o que ouvi de uma senhora atrás de mim:
– Ai, meu Deus, daqui a pouco vai começar a barulheira. Todas as casas da minha rua botam o som nas alturas. Eu não consigo dormir. Fico com uma dor na nuca e uma vontade enorme de vomitar.
Dor e sofrimento. Eis o resultado cabal do desvario a que chegou o uso irresponsável da parafernália sonora ao alcance de qualquer orçamento. Mas o sofrimento pelo uso do som alto não vitima apenas aos que o escutam involuntariamente.
Prestemos atenção aos seus executores. Quando carregam o som na carroceria de suas camionetes, geralmente estão sós, os olhos perdidos muito além do pára-brisa. Quando, em grupo, abrem portas e malas de seus carros na frente de um bar, balançam-se como autômatos, geralmente sem qualquer companhia feminina. Em casa, são deixados a sós na sala pelo resto da família.
É preciso alguém estar muito mal do espírito para infligir a si mesmo, por horas a fio, tamanha tortura. É necessário também uma boa dose de ódio aos seus semelhantes para atacá-los tão agressivamente.
Isto sem falar na qualidade da música, geralmente reduzida a um ritmo primitivo e repetitivo e, quando existe, a uma letra simplória e pornográfica.
Lembrei-me da mulher do supermercado quando, na minha casa de Cabedelo, atravessei a noite do ano novo sob o fogo cruzado de duas baterias sonoropornográficas.
Começaram na tarde do 31 e só findaram no começo da noite do dia primeiro. Foram mais de vinte e quatro horas de barbárie.
Exasperado, telefonei para o plantão de polícia para escutar de um sonolento e simpático atendente que o problema não era mais deles. Deu-me o número da Sudema e se despediu com certo tom de dever cumprido.
Disquei para o 8839.1909 esperando que alguém viesse em socorro do meu meio-ambiente auditivo. Uma voz muito minha conhecida me informou que o número discado estava desligado e não tinha caixa postal.
Desamparado pelo poder público, fui ver o que podia fazer com meu pobre poder pessoal. Aproximei-me da casa barulhenta, mas não tive coragem de falar com ninguém. Era um pequeno grupo familiar, com algumas crianças desoladas pelos cantos e um punhado de adultos bêbados de olhares perdidos e passos autômatos. Um quadro mórbido de solidão e sofrimento.
Os problemas causados pelo uso inadequado dos aparelhos de som já se caracterizam como epidêmicos. São, portanto, um caso de saúde pública. Gostaria de fazer alguma coisa mais efetiva para combater esta epidemia. Aguardo sugestões.

Polícia neles!
Tenho uma tese. Ou o Ministério Público pega esse pião na unha e bota Polícia para autuar e reprimir ou teremos que conviver e sofrer com o barulho causado pelos debocis, sujeitos que são, a um só tempo, dementes, boçais e imbecis.
Tem que ter Polícia na parada porque quem agride a audição e o sossego alheios dessa forma é capaz de coisa bem pior, anda armado, geralmente aos bandos e não raro se embriaga para aumentar a perturbação e a coragem de incomodar o próximo.
A ação do Estado, se necessário com uso da força policial, no sentido físico mesmo, fará da repressão aos debocis a mais legítima defesa de terceiro.
Tem que ter Polícia. Até por que está visto e revisto que nem a Sudema, órgão do Estado, nem as secretarias municipais do ramo têm interesse, vontade ou estrutura para livrar o cidadão comum dessa zoada infernal.
No caso de João Pessoa, gostaria muito ver entre as prioridades da nova gestão uma ação incisiva da Semam – Secretaria Municipal do Meio Ambiente – para nos livrar do infeliz e desonroso título de Capital Nacional da Zoada.
Título que nos deu Marilena Felinto, colunista da Folha de S. Paulo, que veio visitar João Pessoa e foi embora correndo daqui, cerca de dez anos atrás.
Dia seguinte, publicou no jornal de maior circulação do Brasil que fugiu da Paraíba para não ficar mouca nem doida numa terra onde o volume do som dos debocis abafa qualquer grito de protesto e revolta.
Bonito pra nossa cara!

Rubens Nóbrega, em 06 de janeiro de 2009.

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