Será que todo mundo já foi capaz de sentir na alma os encantos divinos que vêm do mar? E de conseguir escutar algo da história sutilmente escrita no barulho de suas ondas? Quantos aprendem, ou ao menos percebem as lições que nos dá o movimento das marés, lua após lua?
E por falar em lua, o que será que as pessoas realmente experimentam quando a veem se derramando em prata, nos reflexos de uma noite sobre o oceano?… Digo isso porque penso, às vezes, que perdemos o “fio da meada”… ou melhor, o siso.
Quando caminho nas areias que beiram o mar, seja onde for, aflora-me um sentimento tão sublime, tão especial, como se ali, naquelas águas, pudesse me enxergar inteiro, numa simbiose secularmente hereditária, biológica, genética, sei lá… E os ventos que chegam de trás do horizonte, e por cima das ondas deslizam, com cheiro de outros mundos, transportando em brisa o tempo que lá já aconteceu?
Mas, ao ver o sol debruçando-se sobre tudo isso, é que me chega a certeza de que progride a distância que nos separa das reverências à vida, do respeito ao silêncio, e às coisas de Deus.
A atual e quase generalizada indiferença perante o mar, a banalização e o total descuido com as praias podem, lamentavelmente, significar o rompimento da emoção humana com as origens mais profundas da Criação. Estaríamos desprezando a nossa essência cósmica, marítima? Ou nos esquecendo das “divinas virtudes” (hein, Gustavo Magno?)…
Que a vida sobre a terra veio do mar, todo mundo aprendeu. Mas é notório esqueceu, ou não mais assim sente. É fácil, ao mesmo tempo difícil, constatar tal lapso de memória logo nos primeiros passos que hoje se deem nas praias. Não são discretos os indícios testemunhos de tal denego: lixo e barulho, que pena!
Dirá você: “que caretice! Praia é curtição, lugar de “balada”, “calcinha preta”, “aviões do forró”. Danem-se as lavandeiras que brincam nas espumas brancas à luz da lua. Danem-se os bem-te-vis que dormem nos coqueiros de Tambaú. Morram os velhuscos que lá ainda sobrevivem de memórias toscas, do tempo em que se ouvia alguém lhes dar bom dia”…
Ora, ora, que tristeza esse meu pensar… Não seria preferível crer que assim não há de ser? Imaginar que, tão logo os prefeitos devolvam o olhar para as coisas que se foram, e que podem não mais voltar, tudo há de melhorar?
Assim como acreditar que Ricardo e Aluísio não se percam na volta, pois há tempo de sonhar. Ainda que choremos ao ver Tambaú e Coqueirinho dando adeus à Natureza, ao silêncio e à beleza.
Assim, estimados prefeitos, da capital e litoral, tenham em mente – pois nas mãos vocês já têm – o valor, sem medida, desses preciosos bens. Com certa autoridade, de quem andou um bocado por este mundo afora, confesso sem delongas: isso aqui é um paraíso. Muito cuidado com ele!

Germano Romero

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Publicado no jornal “Correio da Paraíba”, em 11 de dezembro de 2009.

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