O que teria havido realmente com a “finada” Micaroa?… Àquela época, informou-se que ela fora proibida na orla marítima por causa de inúmeras reclamações dos moradores, fundamentadas na famigerada “perturbação do sossego alheio”… Uma justificativa não muito plausível, porquanto não há razões para banir um monumental desfile sob um argumento “trivial”, em se tratando de costume tão facilmente encontrado no nosso cotidiano: fazer barulho em via pública.
Na verdade, os eventos que ainda ocorrem no Busto de Tamandaré, cuja vizinhança é predominantemente residencial, vêm perturbando muito mais do que a finada Micaroa. Pois, ao invés de anuais, como era ela, são muito mais freqüentes. Marchas, caminhadas, estações de verão, shows e outras manifestações pitorescas, grotescas e populescas insistem em acontecer permanentemente ali. Domingo passado, houve uma “passeata gay” que foi uma verdadeira afronta à tal “Lei do Silêncio”. Telefonamos para a Semam, eu, alguns amigos e familiares que também residem aqui perto, e os atendentes informavam com a maior naturalidade que o evento “havia sido autorizado,” e que estava sendo “monitorado pelos fiscais”… Ora, ora, só se os detectores usados pelos funcionários do plantão estão adulterados, porque a barulheira foi pior do que 10 Micaroas…
Bem, já está mais do que provado que contra essa vergonhosa poluição sonora da “Capital das Acácias”, hoje “Capital do Barulho”, o que falta mesmo são vontade política e educação. Assim como ações da Justiça e das polícias. Nem precisaríamos recorrer a leis municipais, bastava obedecer ao Código Penal, que vige há quase 70 anos e é bastante claro no artigo 42: “Constitui contravenção penal a perturbação do sossego alheio”. E ainda: “é dever de todos zelar pela tranquilidade pública”.
Diante disso, por que não se proíbem definitivamente que eventos barulhentos aconteçam próximos a áreas residenciais, como no busto de Tamandaré, e não se os transferem para a Lagoa, o Ponto de Cem Réis, o Varadouro, Ronaldão, Almeidão e outras áreas afins, onde não há gente morando por perto? E por que não podemos chamar as polícias ao feito quando houver contravenção prevista no Código Penal?
A finada Micaroa foi uma injustiçada. Morreu hipocritamente como uma coitada “cabra expiatória”. E já começamos a sentir saudades dela, que só berrava uma vez no ano… Depois ela reencarnou em muitos filhotes que proliferam no Busto do (já surdo) Almirante Tamandaré, e continuam a agredir a ordem pública, o sossego alheio, sob a égide da eterna impunidade e alienação dos poderes públicos.
Mas, faz parte… Pois, quando chegam as campanhas eleitorais, é justamente a grande maioria dos políticos que mais produz poluição sonora por aí afora. Pobre Micaroa… sobrou pra ela.

Germano Romero

 

Publicado no jornal “Correio da Paraíba”, em 20 de novembro de 2009.

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