Quando o homem vem ao mundo, sua primeira pousada é o útero materno. Eis aí om espaço de muito silênciio. A gestação do feto vai se processando sem o mínimo ruído. E tinha de ser, assim, porquanto no barulho, seria impossível a vida em formação.

E se olharmos a Natureza, onde é que está o barulho? As árvores são silenciosas e os pássaros que nelas se aninham só fazem cantar, suavemente. As flores se desabrocham no maior silêncio. E que dizer desta usina que nos fornece luz, o dia inteiro, o sol? Trabalha num saudável mutismo. Não polui a atmosfera, nem agride os ouvidos. Da mesma maneira, as estrelas que surgem para enfeitar o firmamento.

Pascal, o extraordinário pensador, quase sempre ficava olhando uma noite estrelada e se comovia com o seu silêncio. Dir-se-ia que o silêncio é a voz de Deus. Será que se houvesse barulho no fundo do mar, os peixes viveriam? Evidente que não. Portanto, viva o silêncio da vida submarina.

Falei do útero, do sol, das estrelas, das plantas, do fundo do mar, e já ia me esquecendo o nosso corpo, este santuário divino, segundo Emmanuel. Esta cidade sem o mínimo barulho. O coração, esta bomba extraordinária, trabalha em silêncio, e o sangue, este rio vermelho, flui calmamente levando alimentos para as mais distantes células. Também os pulmões, o estômago, o fígado, funcionam sem perturbar o ambiente. O mar não produz barulho, mas marulho, que é diferente. Nada mais apaziguador do que ficar ouvindo a voz do mar…

Aí dirá você: e o trovão? Ah, leitor, o trovão não agride os ouvidos, o trovão produz um som macio, um som terapêutico e místico, que nos leva a muitas reflexões.

Mas, afinal, quem é que faz barulho, neste mundo? O cachorro e o homem. Talvez seja essa a razão porque ambos são tão amigos…

Foi por isso que o homem inventou as máquinas. E eu ainda hoje admiro que ele não tenha fabricado carros sem pneus. É só o que está faltando. O pior é que o barulho humano está cada vez mais se intensificando. Não há mais respeito ao silêncio, mas muita barulheira. Nãodigo em todos os lugares. Em alguns países civilizados as leis do silêncio ainda funcionam. Mas, aqui, nesta nossa capital, o barulho se tornou um escândalo, uma falta de vergonha, um desrespeito ao direito alheio. E a barulheira progride em lugares que foram criados para a paz, a exemplo das praias, hoje infestadas de barracas, seja para futebol, seja para patinação no gelo, ou show de forró.  Aé através dos telefones celulares, surgem, vez por outra, pessoas falando alto, fazendo desses instrumentos verdadeiros microfones… Resultado: muita gente está ficando surda. E quem é surdo costuma falar alto…

Sim, leitor, é que estão matando o silêncio de nossa capital, a ponto de um arcebispo esquecer as coisas do eu para bradar contra barulheira aqui na Terra…

Carlos Romero

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Publicado no jornal “Correio da Paraíba”, em 02 de fevereiro de 2009.

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