Vivemos no reino do barulho. Por aqui as pessoas detestam o silêncio. Pior: Se sentem incomodadas com o silêncio, não sabem viver sem ruído por perto. Não é sem razão que o Brasil tem pouquíssimos filósofos. Claro que isso é uma das causas do aumento da violência em nosso país, sobretudo nas grandes cidades.

O barulho estimula a violência. A pessoa submetida a fortes descargas fica excitada, fora de si, predisposta a ter reações animalescas, pelo menos é o que dizem os especialistas. Muitos crimes brutais, praticados pelos motivos mais fúteis, acontecem em um ambiente de barulho intenso.

A violência e o consumo de drogas lícitas e ilícitas têm aumentado até nas outrora pacatas cidades do interior. As causas? Os mil e um carnavais fora de época, “rodeios” (?!) e magashows de bandas de forró (??!!!), receita infalível para embalar farras homéricas de multidões inteiras, reunindo gente de todas as idades. Danado é que esses bacanais muitas vezes recebem patrocínio público, travestido de “apoio cultural”.

Em noventa e nove por cento das brigas entre vizinhos a causa é a mesma: Som alto, algazarra, festas que mais parecem orgias, veículos transformados em danceterias ambulantes, modos bizarros de diversão, tudo com o barulho infernal reinando absoluto. Para dormir e (veja só!) estudar, as pessoas ligam o rádio. Para trabalhar, ligam a televisão. Para ouvir música estouram os tímpanos de todos que estão por perto.

Até os cultos religiosos (Santo Deus!!!), onde no passado as pessoas encontravam um ambiente de paz, propício para a oração, para o recolhimento, para o diálogo com Deus, se tornaram verdadeiros shows de roque, espetáculos grotescos de histeria coletiva. A praga devastou até as “gincanas culturais” das escolas e as singelas festinhas de criança.

Agora, em João Pessoa, especialmente em João Pessoa, que é o espaço que me castiga, a gente não tem mais liberdade para viver dentro da nossa própria casa. No chamado recesso do lar, não se pode mais refazer as energias, conversar com amigos que nos visitam, dar um pequeno cochilo, ouvir música em volume civilizado ou assistir a um bom filme. A vizinhança não permite.

Outro exemplo: Usar o celular na rua. O barulho produzido por todas as fontes possíveis e imagináveis é tão intenso, no centro da cidade, que a gente simplesmente não escuta a chamada do celular. E se consegue ouvir a chamada ou tem vibrador no aparelho, não pode se comunicar com razoável naturalidade, tem que ser aos berros, em total descontrole.

Para completar a loucura, surgiram de uns tempos para cá, com a complacência das autoridades, as chamadas rádios comunitárias a cabo, as “rádios de poste”, “emissoras” com uma programação basicamente de música e informação. O estúdio é instalado em qualquer 2×2 do centro. De lá saem quilômetros de fios e caixas de som. Tudo pendurado nos postes de iluminação pública.

Pois bem, as tais “rádios de poste” se juntam aos inúmeros carros de som que trafegam em marcha lenta, engarrafando o trânsito, aos carrinhos de mão do pessoal que vende CDs e DVDs piratas e ao blá blá blá sonoro na porta das lojas, infernizando mais ainda a vida do morador de João Pessoa. A coisa tornou-se insuportável, ultrapassa todos os limites do tolerável.

É certo que a Secretaria do Meio Ambiente da Prefeitura (de João Pessoa – PB) tem feito das tripas coração para coibir os abusos. O telefone 3218-9208 até que funciona. Eu pelo menos já tive algumas experiências bem sucedidas. Mesmo tratando da matéria no Artigo 42, inciso III, da Lei das Contravenções Penais (na realidade um Decreto-Lei de 1941), embora aplicando penas muito brandas aos infratores, está na hora de o legislador encarar a poluição sonora como crime ambiental.

Não bastam apenas as campanhas educativas realizadas pelos administradores mais sensíveis. O legislador, assessorado por bons tributaristas, estabeleceria a melhor forma de punir esses trogloditas do Terceiro Milênio. Multa, multa pesada para as pessoas flagradas perturbando o sossego alheio. A reação da sociedade civilizada tem que ser proporcional ao dano que essa gente deseducada causa.

Petrônio Souto

O autor é jornalista e advogado.

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