Na Paraíba se encontra o Ponto Mais Oriental das Américas, o único marco internacional de evidência que o Estado possui: a Ponta do Seixas. As autoridades insistem em fazer vista grossa ao estado precário em que se encontra uma área da cidade que poderia ser o “filé” de qualquer projeto turístico que se pretenda desenvolver.
Houve uma ocasião em que uma arquiteta da UFPB estudou e concluiu sobre a condição de vida dos bairros de João Pessoa. A praia do Seixas ficou abaixo da Ilha do Bispo, segundo ela, onde os habitantes têm melhores condições de vida. É verdade!
Sem agredir aos moradores da Ilha é preciso dizer que o bairro deles fica atrás do cemitério, onde João Pessoa acaba, em redor do “rio Sanhauá”, que nunca foi rio; é só um alagado, braço do rio Paraíba.  Ali, semicoberto por uma vegetação nada atraente, está o mangue poluído, cheio de detritos, quase morrendo. E sobre ele, palafitas onde vivem desfavorecidos da sorte, cientificamente denominados de excluídos sociais.
Apesar disso a Ilha do Bispo tem igreja, escola, água tratada, praça pública, posto de polícia, unidade de saúde, padaria, mercadinho, farmácia e até banca de revistas. Na praia do Seixas não tem nada disso!
E danado é que o Seixas não é somente onde a cidade começa. Não! No Seixas começa as Américas. Em vez de um mangue pútrido com águas sem horizontes, temos o mar imenso, às vezes azul, às vezes verde-esmeralda, cuja contemplação chega a extasiar. E à beira dele, verdes coqueiros enfeitando a paisagem. Mas os moradores do Seixas estão como pavão, vivendo da beleza.
Remédios à noite, vamos comprar em Tambaú, pois motoboy não entrega no Seixas com medo dos assaltantes. Uma padaria que tenha pelo menos pão, biscoito e bolacha, só no fim da avenida Ruy Carneiro, há oito quilômetros de casa. Roubos e assaltos começam a fazer parte do nosso cotidiano.
A banca de revistas mais próxima fica junto ao Hotel Litoral, na praia do Cabo Branco. Da Polícia, há um posto na praia da Penha, às vezes aberto, às vezes fechado, sem viatura. Mercadinho pra compras, negativo. Unidade de Saúde, também não. Tudo só na Penha.
Por falar em saúde, não temos água tratada, nem saneamento. Servimo-nos da água de poços em lençol freático que já está contaminado por dejetos de fossas negras. A energia elétrica no Seixas falta com freqüência. As bombas hidráulicas gemem dolorosamente na hora de pique, pra poder puxar a água da gente beber e tomar banho.
Um terreno destinado a equipamento comunitário, doado aos habitantes do Seixas pelo proprietário do loteamento, foi dado à Igreja do Betel Brasileiro. A decisão nos expropriou o terreno em que sonhávamos construir a sede da sociedade dos moradores, uma unidade de saúde e um posto de polícia. Hoje essa questão é uma briga.
A nossa praça, Praça do Sol, criada por Lei Municipal, virou Praça das Américas, inacabada, um depósito de lixo usado pela favela instalada em redor dela. Um amontoado de barracas construídas em alvenaria, palha, madeira, papelão, zinco ou qualquer outra coisa que possa servir de anteparo.
E é nessas barracas, que não dispõem de água corrente e tratada, que funcionam “restaurantes” e bares sem a mínima condição de higiene.
E o mar que todo dia derruba um pedacinho do Cabo Branco também está levando a Ponta do Seixas. Para não perder as casas à beira-mar, seus moradores erguem muralhas de pedras, reforçadas frequentemente.
Ou as autoridades providenciam a falada e eternamente esperada construção da proteção ao Cabo Branco, ou muito em breve o farol de lá cai dentro do mar.
E quando alguém procurar a Ponta do Seixas vai ouvir: o mar levou…

Marcus Aranha

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Publicado no jornal “Correio da Paraíba”, em 31 de janeiro de 2010.

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