Ontem, pela manhã, passou um carro de propaganda política aqui perto de onde eu moro que quase botava o prédio abaixo. E, pela primeira vez, lamentei não ser surdo. Sim, porque vai chegar o dia em que só os surdos suportarão a barulheira, seja de propaganda política, seja comercial. E, aqui para nós, a propaganda política não deixa de ser comercial, com a diferença de que esta se refere a produtos, serviços, enquanto aquela alardeia candidaturas. E se o candidato permite tal abuso é por que só pensa nele e esquece os outros, principalmente os que estão nos hospitais ou repousam em suas casas, sejam renascidos, sejam idosos.
Aí vem esta indagação: por que nas metrópoles civilizadas do chamado Primeiro Mundo, não ocorrem tais aberrações sonoras? Mas a resposta vem em cima da bucha: tudo é uma questão de educação, de respeito ao direito alheio, de cumprimento da lei. Vá ver que lá a educação em prol do silêncio começa nas escolas primárias.
O barulho é uma excrescência, uma estupidez, um escândalo, uma falta de vergonha que merece pronta intervenção do poder público, sobretudo do Ministério Publico, que ainda é um órgão capaz de zelar pelo cumprimento da lei, e lei é o que não falta coibindo o abuso da poluição sonora. Mil vezes a propaganda através de outdoor do que através do barulho.
Confesso que estou envergonhado com o que ouvi, aqui em Tambaú, esta manhã. Esquecem os que patrocinam esses escândalos sonoros que o silêncio é uma necessidade vital. Vejam se Natureza faz barulho, vejam se há barulho nesta fábrica que se chama corpo humano, veja se os pulmões, o coração, o sangue emitem qualquer ruído.
E que dizer das árvores, do sol, das estrelas, do mar, que não faz barulho e sim marulho que é um bálsamo.
O pior é que a propaganda sonora já está sendo utilizada por esses carrinhos de mão, vendedores de CDs, destrindo estupidamente o silêncio.
Curioso é que me levantei hoje relendo alguns tópicos de Camus, que no romance “A Peste” escreveu o seguinte: “Como imaginar uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro das folhas. Em suma, um lugar silencioso?”. Acontece que a peste, no romance, destruiu uma cidade. Ora, ora, imaginem se Camus estivesse morando em João Pessoa! A peste que ele testemunharia seria outra. A peste do barulho. É esta peste que está arrasando nossa cidade com a complacência cínica das autoridades…

Carlos Romero

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Publicado no jornal “Correio da Paraíba”, em 28 de julho de 2010.

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