Sou visceralmente contra qualquer tipo de proibição às manifestações políticas de toda ordem em campanhas eleitorais, mas estou muito tentado a me descartar do princípio quando o assunto – ou foco – é carreata.
Que me perdoe quem gosta, participa, organiza, promove ou financia, mas entre todos os eventos de campanha não consigo ver coisa mais chata, mais démodé, mais brega, mais kitsch, enfim, do que a tal da carreata.
Mas não é só por isso. É principalmente pela poluição ambiental, sonora e visual que causa. Carreata enche o ar de monóxido de carbono, os ouvidos de barulho infernal e os olhos de figuras e cenas de gosto duvidoso, para dizer o mínimo.
E a sensação horrível de ludibrio que deixa no contribuinte mais desconfiado? Desconfiado, sobretudo, de que no final das contas é ele quem paga a carreata. E, nesse caso, creio ser dispensável declinar as razões para tal desconfiança, não é mesmo?

Afronta à lei
Bem, como se não bastasse tudo o mais, carreatas da Paraíba, em especial nos seus maiores colégios eleitorais, transformaram-se em afronta aberta às leis de trânsito e flagrante desrespeito aos cidadãos que delas não participam.
Começa pelo fato de que muitos motoristas de carreata bebem álcool à vontade enquanto dirigem, sob olhares complacentes e as barbas de molho de policiais ou agentes de trânsito. E não pára por aí.
No último domingo, pude testemunhar na Capital o que muita gente já havia testemunhado e me contado: batedores de uma carreata bloqueando cruzamento de rua com avenida para facilitar a passagem de correligionários motorizados.
Na convergência da Beira-Rio com a Ruy Barbosa, na Torre, altura do Posto de Afrânio, por volta das 10h daquele dia vi um grupo de motoqueiros (a serviço de um candidato a deputado do PSB) fechar a pista no sentido praia-cidade.
Rapidinho formou-se fila de espera de quem nada tinha a ver com a campanha ‘socialista’ até o momento em que se viu impedido de seguir adiante porque a barreira de motos mantinha pessoas reféns dentro dos próprios carros.

Situações aflitivas
Enquanto os girassóis castigavam na Torre, no Cristo Redentor um amigo meu era forçado a esperar meia hora ou mais pela desobstrução de uma rua bloqueada por motoqueiros a serviço da carreata do PMDB.
Ainda bem que ele estava com paciência e humor para aguardar a vez de atravessar ou entrar na avenida que o levaria de volta para casa.
“Mas já pensou se eu estivesse com uma baita disenteria ou levando alguém com problema grave a um hospital?”, questionou o meu amigo, citando apenas duas das inúmeras situações que podem ocorrer com os obstruídos por carreatas.
Felizmente, não tive até ontem notícia de que uma daquelas carreatas do último domingo tenha cometido o abuso e consumado o absurdo que seria atrapalhar viaturas de bombeiros ou ambulâncias, por exemplo. Só para citar mais dois exemplos.

Farsa no ‘guia’
Carreata é o ó, diria minha filha Danuta. Sem contar aquela exibição espalhafatosa de candidatos que acreditam medir a popularidade ou intenções de voto pelos quilômetros de aborrecimento que espalham na cidade.
Outra coisa. Na maioria das vezes, carreata é pura farsa. Muitos vão às carreatas porque são forçados a, intimidados a, porque são comissionados ou aspones de Estado ou Prefeitura e temem perder a boquinha.
Já imaginou se algum fiscal do ‘home’ faz correr lista de presença na concentração?
Já outros vão às carreatas na expectativa de ganhar uma autorização de abastecimento de combustível, de lanche, almoço ou para beber de graça.
No final, a única serventia da carreata seria “gerar boas imagens para o guia”, costumam dizer fazedores de efeitos especiais dos programas de televisão dos candidatos ‘que passam’ no horário eleitoral ‘gratuito’.
Como se isso ainda enganasse os eleitores-telespectadores, que cada vez mais em maior número sabem o quanto a maioria dos acenos, sorrisos, beijos e abraços que aparece no guia não passa de armação.

Rubens Nóbrega, em sua coluna no jornal “Correio da Paraíba”, em 19 de agosto de 2010.

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